Via Vermelho – O presidente Jair Bolsonaro é um “sintoma da derrota do Brasil” – um país que ficou “apático em torno de 100 mil mortes” por Covid-19 porque “já se acostumou com a morte, principalmente de trabalhadores e de pessoas negras”. A opinião é do filósofo, advogado tributarista e professor universitário Silvio Almeida, que estuda as relações raciais no Brasil e publicou o livro “Racismo Estrutural”, da Editora Polén, em 2019.
“É um país que não se livrou da alma da escravidão. Ela não existe mais como sistema econômico e político, mas deixou marcas nas quais o Brasil se reconhece muito”, afirmou Silvio, em entrevista ao El País. “Acho que 100 mil mortes é tido como algo absolutamente corriqueiro”, disse.
Na semana passada, Silvio assinou o pedido de impeachment apresentado pela Coalizão Negra por Direitos contra o presidente Jair Bolsonaro na última semana. Há mais de 50 tentativas de impedimento protocoladas na Câmara.
“Os vários pedidos de impeachment vão desde a interferência dele nas ações relacionadas às investigações que envolvem a família dele, passando também, e principalmente, pelas ações e omissões na pandemia. Pegando a atuação do presidente no contexto da pandemia, temos aí uma série de condutas que poderiam ser enquadradas como crime de responsabilidade. Essa coisa da cloroquina, a forma como as medidas fundamentais estão sendo manejadas, tudo isso é vergonhoso”, considerou.
“O presidente da República é uma figura a quem cabe orientar o país num momento de crise. E o presidente desorienta o país, coloca as coisas em dúvida e essa é sua forma de governar”, apontou Silvio.
“Ele não tem condição de governar sem ser causando confusão, causando conflito. Ele não tem como governar na normalidade”, enfatizou.
O jurista lembra que, em média, são assassinadas 50 mil pessoas por ano no Brasil. “É uma coisa absurda. É um país em que pessoas morrem de fome”, afirma.
“É um país que não se livrou da alma da escravidão. Ela não existe mais como sistema econômico e político, mas deixou marcas nas quais o Brasil se reconhece muito”, reforçou o filósofo e advogado.
Para Silvio, lidar com “esse estado de coisas” requer “pensar na valorização da vida”, além de “necessariamente entrar em conflito e confrontar as pessoas que desvalorizam a vida”.
“As pessoas que querem civilizar o país, com todas as objeções que esse conceito possa ter, não podem ter medo de ter o poder. Vão ter que chamar para si a responsabilidade de tomar as decisões e de confrontar certos interesses, de estabelecer um novo cenário para que novas possibilidades e novas vozes surjam no país. A gente precisa se livrar dessa alma bandeirante, de senhor de escravo”, destacou.
Com informações do El País